«É no mais profundo do cadinho humano, aí, nesse lugar paradoxal, onde a fusão de dois seres que realmente se escolheram um ao outro restitui a tudo quanto existe as perdidas cores do tempo dos antigos sóis, nessa região onde, todavia, também impera a solidão, mercê de uma dessas fantasias da natureza que permite que, em torno das crateras do Alasca, continue a haver neve sob as cinzas, é aí, precisamente, que eu, há alguns anos atrás, pedi que se procurasse uma beleza nova, a beleza “exclusivamente encarada para fins passionais”. Confesso, sem o mínimo acanhamento, a minha profunda insensibilidade perante espectáculos da natureza e obras de arte que, à primeira vista, me não suscitem aquela emoção física, cuja sensação mais característica é a de uma pena ao vento a latejar-me nas têmporas, capaz de me provocar um verdadeiro arrepio. Não posso impedir-me de estabelecer uma relação entre essa sensação e aqueloutra suscitada pelo prazer erótico, e de entre ambas distinguir apenas uma diferença de grau. Se bem que nunca tenha conseguido esgotar, através da análise, os elementos constitutivos dessa emoção – que deve, com efeito, valer-se dos meus mais profundos recalcamentos – aquilo que dela sei assegura-me que só a sexualidade aí preside. Escusado será dizer que dados estes factos, a tal emoção muito especial a que fiz referência pode fazer a sua irrupção no momento mais imprevisto, e ser provocada por algo, ou por alguém que, de um modo geral, me não seja especialmente caro. É contudo evidente que, mesmo assim, se trata de uma emoção desse teor, e não de qualquer outra, desejando eu insistir sobre o facto de que é impossível uma pessoa enganar-se: tudo se passa, realmente, como se eu me tivesse perdido e alguém, de repente, me viesse dar notícias minhas.»

André Breton
in  O Amor Louco, Editorial Estampa, 1971

Campo gravítico

Uma serpente na terra
desenha um nome

o nome muda de pele
ao ritmo da lua
lua lua lua      o nome

de tanto ser dito
perde as escamas
perde de um peixe

a memória a maré
a surpresa do oxigénio.

(ganir, carpir)


Cento e oitenta degraus profetizam
lágrima e meia (bengala marulhando
missangas e badalos e sinetas)
aos olhos nados. Tortos.

Crendice do tacto no exacto acto
da carne férrea. Cheia.

Isco

Nado fresco - homem
nu de mundo

toca aberta
à mínima sede

púrpura mel asa
por acontecer

No casulo - frustração
de lagarta

ondulação














Uma alegria ter ido ao mar e um bocadinho adentro das palavras.
Uma alegria fazer um bocadinho de callema.

=>cooperativa literária

Autofagia

Comi um pássaro com especial cuidado
nos ossinhos das asas (não aprendi a voar).
Não se come a liberdade          não se come
não se                              a liberdade come
dos meus ossinhos os pássaros seus.

O segredo dos peixes não se esconde em corais

Nem o segredo dos peixes
se esconde em corais nem
a soleira das portas oculta
nos cães a melancolia.
E se nalguns pulmões navega
uma ou outra fragilidade e
se numa ou noutra veia
as ondas ladram sangues
mais vermelhos
é agarrar na boca e dizer-lhe
assim: abre-te ao ponto da vida.

E abrindo-se a boca de espanto
é escancará-la e esclarecê-la:
és vereda de dois rumos, que a vida
(mais que presa) é correnteza.