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«A poesia é o luxo necessário. Acabo de definir a poesia, reparem: o luxo absolutamente necessário. É uma contradição, mas é justamente assim que quero definir a poesia.»

George Steiner
entrevistado por Beata Cieszynska e José Eduardo Franco, Revista Ler nº 100, Março de 2011

O Pão

Juro que aqui estamos sentados
julgo que mo disse ainda hoje ao despertar
uma mesa diante dos pés
uma manta acolhendo faz frio

Juro que aqui estamos sentados
o sofá dói a esta hora de domingo

Temos um amor e está bem
podemos deixá-lo na mesinha do corredor
ou no balcão da cozinha junto do pão
e não tem erro entrar e sair de casa
é passar por ele

Logo de manhã é barrá-lo na fatia de pão
pedir um bocadinho mais destas migalhas 


Hugo Milhanas Machado, As Junções, Artefacto, Lisboa, 2010

DE PROFUNDIS

o que os homens uns aos outros trocam, se escondem
curva pouco a pouco escurecendo os ossos, até
ser uma lâmpada única, um despojo
rosas (digamos rosas): nascem sem nome:
dentro do nome florescem, se tornam
fusíveis do silêncio que morde do avesso
a pálpebra deserta, o que os homens

dividem na sombra, o espesso
coração debruçado
lanternas (digamos) oscilando no átrio, saliva
escorrendo dos olhos, até
florescer, pouco a pouco furando
a pele outra dos ossos, mancha
que deixaram no ventre
pálpebras de rosas
                   (digamos)

o que os homens uns dos outros dividem, se recusam
despojo dos olhos dentro do nome único dos olhos
pouco a pouco escondendo as lanternas, o oco
coração junto à boca mordendo
a pele outra das rosas (digamos)
quando os rios começam, nascem
sem fim: eternamente: até
as pálpebras cerradas oscilando na sombra, o que os homens

rasgam no vidro, ao avesso dos ossos
pouco a pouco escondendo o único nome
sem nome das rosas (digamos)
coração inclinado de dentro dos olhos
escurecidos de saliva,
uns aos outros conhecem, o espesso
rumor dos pelos brancos nas axilas
pálpebras, de bruços

o que os homens uns aos outros afastam, se dizem
sombra pouco a pouco ocupando na boca
o sítio dos nomes,
lugar de dedos que a ternura não
pode inclinar, o preço que os homens

medem na sombra, e (digamos) de rosas
avessas aos ossos, de dentro dos ossos,
escurecendo pouco a pouco o mundo
no instante de florir: despojo.

António Franco Alexandre, Poemas, Assírio&Alvim, Lisboa, 1996
«não pretendo escrever uma ode ao desalento, mas sim vangloriar-me tão efusivamente quanto o galo doméstico no poleiro pela manhã, apenas para a acordar os meus vizinhos.»

«dou por mim subitamente vizinho dos pássaros, não por ter aprisionado algum, mas por me ter engaiolado perto deles.»


Henry David Thoreau, Onde Vivi e Para que Vivi, Quasi Edições, 2008

Agora


Há um martelo de enigmas,
um martelo louco batendo nos nervos,
esmagando as fibras,
há um estrondo subterrâneo que sobe para as
fontes,
mas não explode,
não explode esta cabeça vencida, caída sobre
a mesa,
sobre a toalha bordada entre o jejum e as
missas, nas terras do pai.

Há um globo de magias em desuso que não
perturba quem chega, quem se senta,
com as mãos abertas, com a faca atrás,
pelo lado das costas que lançam nas paredes
um vulto sinistro, em silêncio, à espera.

Eu sei por que veio, o que quer, o que faz aqui,
mas tu ergues os cálices,
tu olhas para ela e ofereces uma rosa e
repartes o pão,
e depois adormeces e entras no túnel que dá
para as colinas de Deus,
para os seus mortos antigos.


José Agostinho Baptista
in Agora e na Hora da nossa Morte, Assírio&Alvim, Lisboa, 1998

Natalício

Ó grande angústia, túmulo de cânceres,
às seis horas na axila dos pássaros:
quem me abrirá a infernal porta do além,
quando soar a hora em que do sangue
verei o universo menstruando Deus?
Tudo é passado no tombar do mármore.

Poema de Nauro Machado
in Antologia de Poesia Brasileira do Século XX-Dos Modernistas à Actualidade, Selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona, 2002

Querem o céu

Querem o céu, a mística mansão
Da alma.
E, se estivessem lá,
Queriam a terra, a sórdida morada
Da raiz.
Mas é o céu que lhes diz
Eternidade,
Verdade,
Santidade
E descanso.

Assim se pode mistificar
A preguiça,
O pecado,
A mentira
E a transitória vida natural.

O grande tecto azul, porém, não dá sinal
De acolher o aceno.
Afaga as nuvens, e da luz solar
Faz o dia maior ou mais pequeno.


Miguel Torga Cântico do Homem, Coimbra Editora, 1950
Singular Tempo Plural

Em Outubro passado
saí à noite com a cunhada de um amigo
o que me pareceu sexualmente correcto.

Tratava-se o espécime de alguém bem alinhavado
o que também me pareceu sexualmente correcto.

Levei-a a jantar a um bonito restaurante
trocámos umas ideias
trocámos uns olhares
engraçámos com os pontos em comum
e tudo estava a correr bem.
Falava eu das castas e tradições
do vinho que bebíamos
quando, sentindo-lhe o bouquet
ao dar um gole em grã seigneur
o estafermo do líquido
me entrou para os pulmões, circunstância infeliz
que provocou de imediato
imponente e borrifada engasgadela
mesmo ali à frente da carinha dela
o que francamente me pareceu
sexualmente incorrecto.

Mais tarde, quando já tinha
a algum custo recuperado o élan
fui com ela dar uma volta pela marginal norte.
Durante o passeio,
disse-me que estava a gostar muito
de ouvir os Roxette
o que me pareceu sexualmente correcto.
Depois abordou a política.
Explicou-me que já não era
mas que tinha sido daquele partido
que agora, por sinal, está bastante partido
no mau sentido do termo.

Foi logo a seguir que me falou do mar.
Disse-me que o mar, poucos quilómetros adiante
era lindo!

Eu estava já a afiambrar as ideias
e não tardava muito ia entrar naquela fase
em que nos armamos em carapau
e em que o próprio pirilau
até parece dizer yes
mas naqueles poucos quilómetros
que faltavam para o sítio-turquesa
onde o mar é lindo
o carro ficou sem bateria.
Ainda esgrimi, atrapalhado
um incómodo diálogo com o démarreur
mas o carro, pois sim, já dali não saiu
o que, convenhamos
foi de todo sexualmente incorrecto.

Passou-se uma semana, um mês
sucederam-se os outubros
e, talvez pelo que se passou naquela noite
mas creio que não, as nossas vidas
levaram rumos diferentes.

Através do tempo
quando levo alguém a ver
o sítio onde o mar é lindo
fico com a sensação
de que é sempre um pouco depois.



Tela


Descem pelas colinas os animais que sonhas
São grandes ruminantes fulvos
e descem cheios de sol
sobre as relvas

Ao vento erguem e à claridade as cabeças
Dir-se-ia serenos compreenderem muito bem
o céu pintado de azul e água

Depois seguem. Descem mais
Devagar chegam aos charcos
onde bebem
saboreiam uvas
onde se deitam
certos de que os vais achar belos
e perfeitamente integrados na paisagem



17.


Para te ajudar na medição das despedidas
nessa insistência tua em saber
qual a mais longa, qual a mais acre
posso dizer-te que existem as com buganvílias por perto
no apaziguamento dos quintais; existem
as solarentas
testemunhadas pelas encostas de vinhas; existem
as trucidadas pelo ferro quente dos comboios
e existem aquelas
em que apenas, por instantes, pousamos a mão
no cabelo de quem amamos



Daniel Maia-Pinto Rodrigues

in O Afastamento Está Ali Sentado, Quasi Edições, 2002
Aberração, n. Qualquer desvio de outra pessoa relativamente aos nossos hábitos de pensamento, quando ainda não se lhe pode chamar demência.

Absurdo, n. Uma afirmação ou convicção manifestamente contrária à nossa própria opinião.

Ajudar, v.t. Criar um ingrato.

Apaziguar, v. Chamar «cãozinho» a um buldogue quando este se encontra firmemente agarrado à nossa retaguarda.

Aplauso, n. O eco de um lugar-comum.

Cacarejar, v. Celebrar o nascimento de um ovo.

Culpado, n. O outro indivíduo.

Destino, n. Aquilo que autoriza os crimes do tirano e serve de desculpa para os fracassos do idiota.

Difamar, v.t. Mentir acerca de outra pessoa. Dizer a verdade acerca de outra pessoa.

Espelho, n. Uma superfície plana de vidro, na qual é encenado um espectáculo efémero para deleite das desilusões do homem.

Estrada, n. Uma faixa de terreno através da qual podemos ir de um sítio cansativo para um sítio inútil.

Feitiçaria, n. O antigo protótipo e precursor da influência política.

Imaginação, n. Um armazém de factos gerido em parceria pelo poeta e pelo mentiroso.

Incenso, n. No contexto religioso, um argumento dirigido ao nariz.

Intimidade, n. Uma relação entre dois tolos, providencialmente atraídos para a sua mútua destruição.

Qualificação, n. Ser primo do alfaiate do Presidente.

Quantidade, n. Uma boa substituta da qualidade quando se tem fome.

Raciocinar, v.t. Pesar probabilidades na balança do desejo.

Realidade, n. O sonho de um filósofo louco. Aquilo que permaneceria na copela se procedêssemos à análise de um fantasma. O núcleo de um vácuo.

Reminiscência, n. O grande luxo dos infelizes.

Sentimento, n. Um débil meio-irmão do Pensamento.

Voto, n. Instrumento e símbolo do poder que permite a um homem livre fazer figura de parvo e destruir o seu país.


Ambrose Bierce
in Dicionário do Diabo, Edições Tinta-da-China, 2006
«É no mais profundo do cadinho humano, aí, nesse lugar paradoxal, onde a fusão de dois seres que realmente se escolheram um ao outro restitui a tudo quanto existe as perdidas cores do tempo dos antigos sóis, nessa região onde, todavia, também impera a solidão, mercê de uma dessas fantasias da natureza que permite que, em torno das crateras do Alasca, continue a haver neve sob as cinzas, é aí, precisamente, que eu, há alguns anos atrás, pedi que se procurasse uma beleza nova, a beleza “exclusivamente encarada para fins passionais”. Confesso, sem o mínimo acanhamento, a minha profunda insensibilidade perante espectáculos da natureza e obras de arte que, à primeira vista, me não suscitem aquela emoção física, cuja sensação mais característica é a de uma pena ao vento a latejar-me nas têmporas, capaz de me provocar um verdadeiro arrepio. Não posso impedir-me de estabelecer uma relação entre essa sensação e aqueloutra suscitada pelo prazer erótico, e de entre ambas distinguir apenas uma diferença de grau. Se bem que nunca tenha conseguido esgotar, através da análise, os elementos constitutivos dessa emoção – que deve, com efeito, valer-se dos meus mais profundos recalcamentos – aquilo que dela sei assegura-me que só a sexualidade aí preside. Escusado será dizer que dados estes factos, a tal emoção muito especial a que fiz referência pode fazer a sua irrupção no momento mais imprevisto, e ser provocada por algo, ou por alguém que, de um modo geral, me não seja especialmente caro. É contudo evidente que, mesmo assim, se trata de uma emoção desse teor, e não de qualquer outra, desejando eu insistir sobre o facto de que é impossível uma pessoa enganar-se: tudo se passa, realmente, como se eu me tivesse perdido e alguém, de repente, me viesse dar notícias minhas.»

André Breton
in  O Amor Louco, Editorial Estampa, 1971
Imagina coisas que caem como os homens, desenha
mentalmente as suas trajectórias sem a pretensão
de adivinhá-las, porque a morte é uma ciência e a queda
uma abstracção geométrica e o chão um plano demasiado
vasto para que não lhe dediques o tempo e a exactidão.


Poema de José Rui Teixeira

in Para Morrer, Quasi Edições, 2004